Venho de uma família grande, com muitas mulheres. Minha mãe sempre nos
ensinou a trabalhar juntas, até nas brincadeiras ou afazeres domésticos.
Mesmo sendo a caçula, sempre tive que participar, eram pequenas
tarefas, mas o sentimento de pertencer me fazia muito bem.
Ter
uma família numerosa requer abrir mão de algumas coisas, de brinquedos,
de espaço e até de alimentação. Naquela época e partindo daquela
história que "onde come uma boca comem duas", tive uma infância humilde e
restritiva. Por longos períodos nossa alimentação era composta apenas
do básico e compartilhávamos roupas, sapatos e até a cama para dormir.
Nossa situação financeira só mudou quando eu e minhas irmãs começamos a
trabalhar e ajudar meus pais.
Aí vieram os sobrinhos. O
primeiro deles chegou junto com meus 15 anos. Eu fiquei maravilhada com
aquele pequeno ser e me dispuz a auxiliar minha irmã nos cuidados com o
bebê. Era meu boneco, adora trocar a roupinha, dar papinha, banho... O
segundo sobrinho nasceu três anos mais tarde e me foi dado como
afilhado. Se antes eu era uma tia dedicada, agora virei uma tia babona.
A família foi crescendo com a chegada de novas crianças. A
cada notícia de gravidez, era uma comemoração. A cada nascimento, mais
uma alegria. Contabilizamos nove crianças, sendo apenas uma menina de
todo o grupo. Meu papel como tia aumentou, trabalhando fora e com um
salário razoável, os sobrinhos sempre eram paparicados com presentes,
passeios e custeio de seus estudos, gastos que minhas irmãs não
conseguiam assumir sozinhas pela quantidade de filhos. Além disso,
ocupei o papel de irmã mais velha mesmo sendo a caçula, sempre ajudei
financeiramente minhas irmãs e talvez pelo meu rápido amadurecimento,
virei a conselheira da família. Com isso vieram as responsabilidades e
cobranças, família é um negócio complicado, quanto mais você se doa,
mais recebe cobranças. Até que encontrei minha cara metade, e com 29
anos de idade, resolvi casar para espanto da minha família. Alguns
acreditavam que ficaria, literalmente, "pra titia".
Se meu
comprometimento com os problemas da família acabou? Claro que não. Mas
tomou uma nova forma. Agora eu tinha que cuidar da família que havia
criado. Mas faltava um filho. Dizem que o desejo pela maternidade surge
quando chega a hora certa. A mais pura verdade. Sentia uma necessidade,
um desejo inexplicável de me tornar mãe. Começaram as tentativas, fase
que durou pouco. Logo recebi a notícia que teria um bebê. Compartilhar
tal notícia com familiares e amigos foi muito gratificante. Me sentia
plena, vitoriosa.
Desde sempre sabia que teria um menino. E
Eduardo
foi o nome escolhido. Um nome simples, fácil e sonoramente bonito. E
Eduardo chegou a minha vida numa sexta-feira a noite. Dizer que aquele
foi o momento mais emocionante de minha vida pode parecer piegas, mas só
quem passa por ele entende sua intensidade.
Aproveitei
minha licença maternidade o máximo que pude, mas ela chegou ao fim.
Minha preocupação era com quem deixá-lo para poder voltar à trabalhar.
Procurei escolas, pesquisei valores e localizações, e fiquei
decepcionada com a maioria delas, se a escola oferecia uma boa
estrutura, o valor cobrado era exorbitante, se tinha um preço justo, a
distância de casa dificultaria nossa rotina. Me desesperei por semanas,
como uma mãe consegue trabalhar sem ter a certeza que se filho está bem?
Recorri à minha irmã que trabalhava como babá, fiz uma proposta de irmã
mesmo e agindo pelo coração, ela aceitou cuidar do meu filho. Ela pediu
dispensa do emprego anterior e eu me mudei de casa para facilitar a
rotina dos dois, nunca me agradou a ideia de expor um bebê ao frio ou
chuva para levá-lo à escola, assim como deixá-lo aos cuidados de
estranhos. Consegui alugar um apartamento no prédio que minha irmã mora,
tive sorte é verdade, mas tal mudança me obriga a enfrentar quatro
horas diárias de trânsito para ir trabalhar e voltar para casa. Grande
parte do orçamento de casa é destinado ao Eduardo. São compras semanais
de fraldas, leite, legumes e frutas. Tenho ainda despesas mensais de
materiais de higiene, medicamentos e roupas. Criança cresce e perde
roupas muito rápido. Além disso, as peças infantis chegam a custar até
mais caro que roupas de adulto.
Tudo isso me fez analisar
muito o fato de aumentar a família. Decidi que o Eduardo será filho
único. Sei da importância de ter irmãos e como é bom ter alguém para
compartilhar a vida. Acho lindo aqueles almoços em famílias, as datas
comemorativas sempre cheias de gente, mas definitivamente, planejei
tanto ter um filho que, como toda mãe, quero oferecer o melhor a ele.
Algumas pessoas me dizem que criança precisa apenas de amor e
atenção. Eu concordo. Mas sei muito bem o quanto é ruim herdar sempre
objetos usados, viver desejando aquele brinquedo que passou na TV,
desejar comer aquele doce e não poder. Meu filho merece ter uma vida
tranquila dentro das minhas possibilidades, merece ter um médico para
tratá-lo, uma escola para poder estudar, ter oportunidades de trabalho,
de amigos, de vida que outros terão... merece ser cuidado com todo o
carinho. Eduardo é a melhor parte de mim.
* Texto publicado originalmente no blog Casos e Coisas da Bonfa, da minha querida amiga Kátia Bonfadini