02 setembro 2008

Pais e filhos

Acredito que o amor a gente não obriga, nem cobra, amar é uma coisa espontânea. E partindo desse princípio não tenho nenhuma dor na consciência quando alguém pergunta sobre o meu pai e respondo que a gente não tem contato, não nos falamos, não há sentimentos.

Para quem está de fora, pode achar um tanto quanto desumano agir assim, mas só quem convive ou tem uma história complicada para entender o que é não ter sentimentos pelos pais. Ao contrário com minha mãe que temos um amor incondicional, embora não somos grudadas.

Minha mãe é uma jovem idosa (deixa ela ver isso) de 61 anos, mulher de fibra que ainda trabalha, dança, conversa, toma uma cervejinha e nunca reclama da vida que leva. Ela e meu pai foram casados durante 30 anos, anos de sofrimento de verdade. Não havia agressão física, mas uma agressão emocional constante, já que meu pai manteve amantes desde o primeiro ano de casamento. Além de uma vida dupla, meu pai era bastante arbitrário com suas responsabilidades como pai de família, sempre vi minha mãe tomar a frente de tudo para que eu e minhas irmãs não passássemos necessidades e mesmo assim tínhamos uma vida bastante humilde. Houve muitas situações que meu pai deixou de nos beneficiar (nem sei se essa é a palavra correta) para dar à outra família que ele mantinha. E isso magoava a todos, principalmente minha mãe.

Finalmente há 9 anos atrás meus pais se separaram e essa foi uma decisão da minha mãe apoiada por todos. Nessa época meu pai estava desempregado e começou a beber. Parece que finalmente minha mãe deu seu grito de liberdade, rejuvenesceu os trinta anos que perdeu ao lado de uma pessoa que não soube amar, dar valor, respeitar.

Hoje ele conseguiu se reerguer, mas sua saúde está abalada. Minhas irmãs do meio têm maior contato com ele, pedi a elas para ajudar no que for necessário. A verdade é que tenho apenas compaixão. Não consigo mentir, nem ser hipócrita. A palavra perdão é linda, porém muito difícil de incorporar, praticar. Eu não recrimino, apenas sei que ele colhe o que plantou no passado. Acredito que a situação estaria bem diferente se ele tivesse agido de outra forma, se tivesse valorizado sua família, infelizmente a vida cobra da gente as nossas atitudes. Eu não tenho vergonha de não amá-lo, eu só sigo meu coração.

2 comentários:

Mia disse...

A vida é cheia dessas coisas, né, Rosi? Amar é algo belo, necessário, leve e espontâneo. A gente ama sem esperar nada em troca e ao se sentir amada, ao mesmo tempo, tem o sentimento de dívida...
Tudo nessa vida pressupõe naturalidade. Perdão, ao contrário do amor, é pesado. Primeiro porque nossa capacidade de julgamento que carregamos de berço bate de frente com criação, interação social e espiritualidade. Ressentimento é prerrogativa puramente humana, e aho que perdão de vez em quando é meio que superestimado, entende? Às vezes ele só existe pra justificar faltas que não foram nem nunca serão transpostas, aí são pseudo-relevadas. É isso que penso... daí que concordo com vc em "gênero, número e grau"!
^.^

=**

Roberta disse...

Concordo com vc !!
Meus pais se separaram a uns 18Anos, quando ele foi morar em Brasilia e "fazer dinheiro".. e so voltou a uns 10anos atras e nunca nos procurou..apenas em Natais e Aniversarios...Posso dizer que amo esse homem???
Impossível, acredito que o Amor acontece com a convicencia ... sem isso...Nao da pra amar...
Sou julgada... e as pessoas dizem que nao sei perdoar...
É dificil explicar mas Nao há o que perdoar ...pq eu nao sinto raiva..nem magoa ..nem NADA!!