20 setembro 2011

A decisão ter um (só) filho

Venho de uma família grande, com muitas mulheres. Minha mãe sempre nos ensinou a trabalhar juntas, até nas brincadeiras ou afazeres domésticos. Mesmo sendo a caçula, sempre tive que participar, eram pequenas tarefas, mas o sentimento de pertencer me fazia muito bem.
 
Ter uma família numerosa requer abrir mão de algumas coisas, de brinquedos, de espaço e até de alimentação. Naquela época e partindo daquela história que "onde come uma boca comem duas", tive uma infância humilde e restritiva. Por longos períodos nossa alimentação era composta apenas do básico e compartilhávamos roupas, sapatos e até a cama para dormir. Nossa situação financeira só mudou quando eu e minhas irmãs começamos a trabalhar e ajudar meus pais.
 
Aí vieram os sobrinhos. O primeiro deles chegou junto com meus 15 anos. Eu fiquei maravilhada com aquele pequeno ser e me dispuz a auxiliar minha irmã nos cuidados com o bebê. Era meu boneco, adora trocar a roupinha, dar papinha, banho... O segundo sobrinho nasceu três anos mais tarde e me foi dado como afilhado. Se antes eu era uma tia dedicada, agora virei uma tia babona.
 
A família foi crescendo com a chegada de novas crianças. A cada notícia de gravidez, era uma comemoração. A cada nascimento, mais uma alegria. Contabilizamos nove crianças, sendo apenas uma menina de todo o grupo. Meu papel como tia aumentou, trabalhando fora e com um salário razoável, os sobrinhos sempre eram paparicados com presentes, passeios e custeio de seus estudos, gastos que minhas irmãs não conseguiam assumir sozinhas pela quantidade de filhos. Além disso, ocupei o papel de irmã mais velha mesmo sendo a caçula, sempre ajudei financeiramente minhas irmãs e talvez pelo meu rápido amadurecimento, virei a conselheira da família. Com isso vieram as responsabilidades e cobranças, família é um negócio complicado, quanto mais você se doa, mais recebe cobranças. Até que encontrei minha cara metade, e com 29 anos de idade, resolvi casar para espanto da minha família. Alguns acreditavam que ficaria, literalmente, "pra titia".
 
Se meu comprometimento com os problemas da família acabou? Claro que não. Mas tomou uma nova forma. Agora eu tinha que cuidar da família que havia criado. Mas faltava um filho. Dizem que o desejo pela maternidade surge quando chega a hora certa. A mais pura verdade. Sentia uma necessidade, um desejo inexplicável de me tornar mãe. Começaram as tentativas, fase que durou pouco. Logo recebi a notícia que teria um bebê. Compartilhar tal notícia com familiares e amigos foi muito gratificante. Me sentia plena, vitoriosa.
 
Desde sempre sabia que teria um menino. E Eduardo foi o nome escolhido. Um nome simples, fácil e sonoramente bonito. E Eduardo chegou a minha vida numa sexta-feira a noite. Dizer que aquele foi o momento mais emocionante de minha vida pode parecer piegas, mas só quem passa por ele entende sua intensidade.
 
Aproveitei minha licença maternidade o máximo que pude, mas ela chegou ao fim. Minha preocupação era com quem deixá-lo para poder voltar à trabalhar. Procurei escolas, pesquisei valores e localizações, e fiquei decepcionada com a maioria delas, se a escola oferecia uma boa estrutura, o valor cobrado era exorbitante, se tinha um preço justo, a distância de casa dificultaria nossa rotina. Me desesperei por semanas, como uma mãe consegue trabalhar sem ter a certeza que se filho está bem? Recorri à minha irmã que trabalhava como babá, fiz uma proposta de irmã mesmo e agindo pelo coração, ela aceitou cuidar do meu filho. Ela pediu dispensa do emprego anterior e eu me mudei de casa para facilitar a rotina dos dois, nunca me agradou a ideia de expor um bebê ao frio ou chuva para levá-lo à escola, assim como deixá-lo aos cuidados de estranhos. Consegui alugar um apartamento no prédio que minha irmã mora, tive sorte é verdade, mas tal mudança me obriga a enfrentar quatro horas diárias de trânsito para ir trabalhar e voltar para casa. Grande parte do orçamento de casa é destinado ao Eduardo. São compras semanais de fraldas, leite, legumes e frutas. Tenho ainda despesas mensais de materiais de higiene, medicamentos e roupas. Criança cresce e perde roupas muito rápido. Além disso, as peças infantis chegam a custar até mais caro que roupas de adulto.
 
Tudo isso me fez analisar muito o fato de aumentar a família. Decidi que o Eduardo será filho único. Sei da importância de ter irmãos e como é bom ter alguém para compartilhar a vida. Acho lindo aqueles almoços em famílias, as datas comemorativas sempre cheias de gente, mas definitivamente, planejei tanto ter um filho que, como toda mãe, quero oferecer o melhor a ele.
 
Algumas pessoas me dizem que criança precisa apenas de amor e atenção. Eu concordo. Mas sei muito bem o quanto é ruim herdar sempre objetos usados, viver desejando aquele brinquedo que passou na TV, desejar comer aquele doce e não poder. Meu filho merece ter uma vida tranquila dentro das minhas possibilidades, merece ter um médico para tratá-lo, uma escola para poder estudar, ter oportunidades de trabalho, de amigos, de vida que outros terão... merece ser cuidado com todo o carinho. Eduardo é a melhor parte de mim.

* Texto publicado originalmente no blog Casos e Coisas da Bonfa, da minha querida amiga Kátia Bonfadini

10 comentários:

Minha Maria disse...

Minha primeira filha não é desse meu casamento, e quando me casei sabia que meu marido queria filhos e eu tbm queria.
Mas acho que vou parar por ai, pois a vida para elas ficaria bem mais limitada se tivessemos um 3° filho.
Concordo com você!
Ah, tem sorteio lá no blog, corre lá.
www.minhapequenamaria.com
Beijooos

Jαqυє ∂α Júℓiα *•.✿ disse...

Rosi concordo com você, e mesmo antes de ter a Júlia independente do sexo do bb, já tinha tomado essa decisão, que seria um filho(a) único, tbm vim de uma família grande,e passamos por muitas dificuldades financeiras e se hoje não tenho uma boa formação, não tive boas oportunidades, penso que foi por isso, por ter tantos irmãos e onde comia um comia dois, três enfim comiam 6 ... estudo, cursos não tivemos, roupa nova era uma vez no ano e olha lá, e hoje olho pra Júlia e penso que muito mais do que dar a ela irmãos que é ótimo, eu quero da a ela tudo o que me faltou a começar por estudos pra ela ter oportunidades melhor na vida ...
muitos até mesmo a família me critica por pensar assim e querer ter só a Júlia, mais esta é a nossa vontade, as nossas condições financeiras não permite ter mais de 1 filho, ai sempre digo, se daqui alguns anos as coisas melhorarem e nós sentimos que dar pra ter mais um bb ai sim pode até ser, mais no momento o nosso desejo e a nossas condições é ter só a Júlia pra dar o nosso melhor pra ela! =)

Rafaella disse...

Concordo com voce...
Não teria coragem de ter um outro filho e Davi perder o conforto que tem, pq o irmão tbm da despesas...
Quero sim ter outros filhos, mas so quando tiver condição...
Muita gente acha que hj é so ter filho e pronto, e esquece que temos que pagar plano de saude, escola, pq se dependermos do governo...
Então temos que ter a quantidade de filhos que consiguimos sustentar bem..
bjos

Mamãe Élen disse...

Muito corajosa a sua decisão, amiga. Eu também tinha decidido que Mateus seria filho único, só que, num único, pequeno e rápido momento de descuido, a Clara foi gerada. E olha: não feche as portas definitivamente... quem sabe daqui a 5, 7, 10 anos, as coisas melhoram absurdamente e vem o desejo e o momento propício para um segundo (ou segunda) filho?
Beijos nossos.

Karin :: Mamãe e Cia disse...

Sabe, antes eu ficava chocada e talx, falava daquela coisa de que não vai ter irmão, não vai ser tio.. e blá blá blá.
Mas hoje, depois de um divórcio e outros contra-tempos, penso duas vezes em ter um segundo filho.

É muito fácil dizer isso ou aquilo, mas na verdade, a outra pessoa não sabe pelo que você passa, sua situação financeira, seus planos e etc. Ninguém pode te dizer se é certo ou errado ter ou não mais filhos...
Você e seu marido sabe o que é melhor pra sua família.

E tenho certeza que a decisão que você tomar independente dela será melhor pra sua família!


Beijoss

Karin
www.mamaeecia.com.br

Amandinha disse...

Nossa, engraçado. Eu estou com um bebê de 3 meses em casa e já penso nos próximos! Mas seu post me fez refletir sobre o assunto e até que você tem razão... acompanho o seu blog a um tempo mas nunca comentei, por isso não se assuste com o meu comentário, rsrsrsrs
Abraço!

Cláudia Leite disse...

Rosi,

Cada família tem as suas prioridades e pensar bem sobre essa questão é primordial.
Ter irmãos é muito bom mas as questões financeiras devem ser levadas em consideração. Mesmo porque hoje em dia as necessidades das crianças são muito maiores que antes, o mundo mudou e mudamos junto com ele.

bjo pra vcs.

Andrea Fregnani disse...

Parabéns, Rosi, pela clareza de pensamentos, pela decisão firme, para o Dudo, além de pais exclusivos, muito amigos escolhidos para compartilhar as alegrias da vida, com certeza não faltarão,
bjs

Edna Fernandes disse...

Concordo em tudo tudo mesmo, eu tb não tive uma infância muito fácil, nem de longe tive tudo que que queria como sou ainda, pretendo esperar pelo menos ate o Pedro ficar um pouco mais velho, ai sim decidir se tenho outro filho ou não.
bjs

Elexina disse...

eu concordo Rosi, eu definitivamente nao quero mais um bebe, e quando falo isso sou reprimida, mas marido ja disse que sonha com a Alice, e entao como somos os dois que decidimos, ainda sentaremos para falar disso, mas pretendo o convencer a ficar so com o Raul.