26 fevereiro 2010

Gente que faz

Vocação natural

Algumas pessoas já sabem desde muito cedo o que querem fazer da vida e escolha da profissão se torna algo natural. Priscila Resende é uma delas. Aqueles conflitos que todos adolescentes se deparam neste momento de qual profissão seguir, de manter alguma tradição ou simplesmente optar por algo rentável não fizeram parte da vida dela. Ela se arriscou numa profissão que era dominada pelo público masculino e provou que aquela ‘praia também era sua’. Neste bate-papo, a engenheira química nos conta um pouco sobre essa profissão.

* Então você é uma engenheira química. O que faz uma mulher numa área voltada ao público masculino?
Na escola, sempre gostei de química, matemática e física. Na época do vestibular, assisti a uns DVDs do Professor Wagner Horta, especialista em profissões e mercado de trabalho, e fiz uma lista dos cursos que eu mais tinha gostado. Busquei as melhores universidades que ofereciam esses cursos e prestei vestibular pra Engenharia de Materiais (em São Carlos), Engenharia de Alimentos (em Campinas) e Engenharia Química (em Niterói). Na minha cidade, Juiz de Fora, há uma excelente universidade, a UFJF, mas não oferecia nenhum desses cursos. As pessoas ficavam intrigadas quando eu dizia pra que cursos prestaria o vestibular. Achavam que eram profissões masculinas, mas isso não me assustava. Pelo contrário, eu queria provar que as mulheres eram tão boas quanto os homens com os números e isso só me dava mais ânimo! Passei no vestibular de Engenharia Química da UFF e pra minha surpresa, na turma havia ainda mais mulheres do que homens. Depois, vim a saber que a Engenharia Química não era um curso tão masculino como eu (e a maioria das pessoas) imaginava.

* Você já sentiu preconceito por ser uma mulher nesta área?
Na segunda metade do curso comecei a me inscrever em sites de várias empresas buscando uma oportunidade de estágio. Na mesma época, fui aprovada em quatro empresas e tinha que escolher uma. Não tive dúvida. Escolhi a mais ousada, a que poderia me oferecer maiores desafios. Fui a primeira estagiária mulher da gerência de operações de uma refinaria de petróleo. Eu vivia de uniforme, capacete e bota pela área industrial entre mais de 100 operadores e 2 engenheiros. No início, sentia que me olhavam com desconfiança, ceticismo. Senti algumas vezes um certo preconceito, sim. Mas não esmoreci. Com o tempo, mostrei o meu trabalho e passaram a me respeitar. Depois de quase dois anos de estágio, me formei e fui contratada na empresa.

* E nos tempos da faculdade, como era a convivência?
Na escola sempre tirava boas notas e nunca tive problemas pra estudar. No primeiro período da faculdade, das 6 matérias, que havia me inscrito, passei em 3, reprovei em 1 e tranquei 2 (pois estava na iminência de reprovar). Tive uma crise de identidade nesse primeiro ano. Eu me achava uma fraude! Me perguntava onde estava aquela inteligência que todos admiravam quando eu estava em Juiz de Fora. Até o quarto período tive muita dificuldade. Ficava em prova final, tive que trancar algumas matérias. Mas depois fui entrando no ritmo, recuperando o tempo perdido. O curso tinha duração de 10 períodos e eu terminei a faculdade em 11. Mas não fiquei muito decepcionada. Afinal, dos 40 que entraram comigo, apenas 4 conseguiram a façanha de terminar a faculdade no tempo certo.

* Explique pra gente o que faz uma engenheira química?
Um engenheiro pode atuar em uma ampla faixa de setores tais como indústrias químicas, petroquímicas e bioquímicas, como engenheiro de acompanhamento de processo; empresas de projetos, calculando torres, bombas, vasos; setor de vendas; administração de indústrias; pesquisa básica ou aplicada voltada ao desenvolvimento de novos produtos e/ou processos; além das áreas de ensino técnico e superior.

* Quais são as atividades que você desenvolve?
Eu trabalho como engenheira de processo em uma empresa de petróleo, mais precisamente com otimização de processos. Ou seja, busco alternativas que possibilitem aumentar a produtividade das refinarias com o menor custo de produção. Já trabalhei com planejamento e programação de produção de refinaria e em projeto de unidades de destilação, coqueamento retardado e craqueamento catalítico.

Priscila e sua linda família





* Além de profissional, você é mãe de duas crianças. Como conciliar tudo?
Ser mãe do Gui (3 anos) e da Duda (8 meses), sem dúvida é o meu melhor e mais prazeroso trabalho. Quando ainda estava na faculdade, dizia que não queria filhos, pois queria focar na minha carreira. O Gui chegou mudando minha vida, meu coração e minha cabeça. Eu gosto do meu trabalho, claro. Tenho orgulho do que faço. Mas os meus filhos são infinitamente mais importantes. Não hesito nem um segundo em jogar tudo pro alto quando eles precisam de mim. O meu trabalho é apenas o instrumento que uso para proporcionar uma vida confortável pra mim e pra minha família. Ela é minha prioridade. Eu acordo cedo, deixo o Gui na escola e a Duda com a babá e chego em casa tarde pra curti-los com o marido. A rotina é cansativa. Gostaria de poder me dedicar apenas meio período à minha profissão, mas atualmente, isso é impossível. Por enquanto, tento compensar nos finais de semana o tempo que fico longe deles. Não levo trabalho pra casa de jeito nenhum!

Priscila escreve no seu blog um assunto sério (a cardiopatia da sua filha) de uma maneira leve e gostosa, mesclando com suas emoções e peripécias de seu filho. Gostou? Confira clicando aqui.

11 comentários:

Alethéa disse...

A Priscila é ótima! Uma referência como mãe e profissional, sem dúvida. Brilhante, Rosi, mais uma vez. Abraços.

Katia Bonfadini disse...

Conheci a Priscila, ela é muito simpática e doce!!!! Meu pai também trabalha na Petrobras. Ele adoraria que seguisse seus passos e me tornasse engenheira química, assim como minhas irmãs. Mas nenhuma de nós tinha esse dom, acho que puxamos mais à minha mãe! Mas acho que ele ficou feliz quando soube que os dois afilhados seguiram a mesma carreira que ele! Parabéns, Priscila, pela entrevista e pela carreira que acho muito interessante! Ah, e pelas crianças lindas também!Beijos!

Flavia Bernardo disse...

Pri...quem eu nem tive contato na faculdade apesar de estudarmos o mesmo curso, na mesma Universidade, em épocas proximas, veio ser amiga após namorar o Ric, amigo desde sempre na facul.

Sempre quietinha e timida, só fomos nos aproximar pra valer depois que passamos a trocar figurinhas sobre maternidade qdo ela estava gravida da Eduarda e eu do Arthur.
Hoje somos amigas de blog tb, além de colegas de profissao!

Beijos!!!

Fla disse...

Que bacana conhecer melhor sobre esta profissão. Parabéns a Priscila por fazer tão bem seus papéis de mãe e profissional.
Beijos

Luma Rosa disse...

Muito boa entrevista! Fui no blogue da Priscila para ver se já não tinha cruzado com ela em algum lugar, afinal, também presto serviços na área de petróleo. As mulheres estão invadindo os quadros em várias áreas que antes eram estritamente masculinas, infelizmente a área técnica ainda carece de profissionais.
Rosi, não tenho intimidade com a Priscila para lhe dar conselhos e sabendo que ela é novata na web, espero que ela leia o meu comentário e entenda as preocupações que tenho, assim como ela por também ser mãe. Ela poderia colocar uma linha d'água nas imagens que expõe dos filhos para evitar problemas futuros. Nossos blogues são acessados por amigos, mas também aberto aos malfeitores.
Bom fim de semana! Beijus,

Verônica Cobas disse...

Rosi e Priscila,

Muito interessante conhecer sua historia, Pri, depois de já nos conhecermos pessoalmente e nem mesmo através de uma interlocução, mas sim pelo espaço da Rosi.
Adoro histórias de vida, adoro trajetórias que se forjaram no esforço e na dedicação, adoro conhecer as pessoas através de um olhar que ainda não lhes tinha oferecido.
O mundinho da Rosi continua nos oferecendo deliciosas surpresas.

beijos nas duas

Nana disse...

Amiga, isso sim é mulher!!!
Adorei a entrevista, parabéns.
ahhh sobre filhos, será que seremos mamães juntas?
bjss

Talita Corrêa disse...

Exemplo feminino...

Lucia Laureano disse...

Adorei ver minha querida amiga Priscila por aqui!
Muito boa a entrevista e o assunto abordado.
Parabéns Rosi pela escolha da entrevistada e parabéns a Pri pela entrevista.
beijos,

Cláudia Ramalho disse...

Adorei conhecer mais um pouco da Priscila. Sabia que ela era engenheira química, mas pensei que estivesse trabalhando numa área totalmente diferente. Não sei por que pensei isso.
É legal ver que temos outras facetas que nem sempre exibimos por aqui.
Parabéns às duas.
Só pude vir aqui hoje, desculpe, mas estou fora de casa, na correria.

bjks

Priscila disse...

Adorei fazer parte do Mundinho e recebi com muita alegria os comentários!
Rosi, obrigada pelo convite!
Bjs.