05 março 2010

Gente que faz


Anos dourados

Normalmente, quando olhamos para o passado, nos remetemos a um passado encantado, à infância. Podemos ainda sentir seu cheiro, um cheiro de doce, de chuva, de bolo, de terra...cheiros que se misturam em um só, esta é uma grande nostalgia e temos a tendência de considerar aqueles bons dias. Fabiana Martins se mostrou uma eterna nostálgica, assim como eu, ao se lembrar da sua infância. Convidei-a, portanto, a contar pra gente os doces anos que viveu.





* Quando você lembra da sua infância, qual a primeira coisa que vem em mente?
Sensações… reviver as sensações que fizeram parte da minha infância fazem parte do meu dia a dia, sabia? De uma certa maneira são elas que dão o "start" aos temas que permeiam meus trabalhos como artista plástica. Me questiono, relembro e sinto todos aqueles agradáveis momentos intensamente. Neles busco entender um pouco mais sobre mim e como eles influenciaram naquilo que me tornei hoje.
Tive uma infância deliciosa, só tenho momentos agradáveis para relembrar. Sou a caçula dos três filhos, tive uma influência marcante dos meus irmãos, pais, tios (as) e avós. Não tenho muitas recordações da vida em São Paulo, além da escola e das brincadeiras em casa. Meus avós paternos moravam no litoral paulista e foi lá que vivi e experimentei todas as coisas boas que uma criança pode ter. A família sempre muito alegre e festiva, meus pais sempre carinhosos e atenciosos. Muitas brincadeiras, muito bolinho de chuva, cheiro de asfalto molhado, cheiro de dama de noite….
A liberdade de poder brincar na rua, de pular amarelinha de brincar de esconde-esconde. Dificilmente meu filho terá as mesma lembranças, a realidade hoje é muito diferente e as vezes me assusta. Acredito que somos o espelho dos nossos pais. Tudo aquilo que aprendemos e vivenciados são absorvidos e com o passar do tempo vamos formando nossa personalidade. O tempo passa, vamos aprendendo mais coisas, amadurecendo… mas nossas raízes estarão sempre presentes. E eu tenho muito orgulho da criação que recebi dos meus pais. Dentro dos seus limites tenho certeza que eles nos deram o melhor. Por isso hoje sou muito apegada a meus pais e irmãos e felizmente nossa família me enche de orgulho sempre.

* Quais os valores que seus pais passaram a você?
Meu pai sempre trabalhou duro. Abriu mão de férias e de ter mais tempo livre com os filhos. Aos finais de semana se não estávamos na praia, íamos viajar. Sempre. Caíamos na estrada e fomos para todos os cantos do estado. Sempre tivemos uma vida confortável, mas sem luxo. Meu pai sempre disse que sua herança seria o estudo. Estudei sempre em escola particular, fiz duas faculdades e hoje reconheço o quanto ele ralou para que tudo isso acontecesse. E minha mãe também, nunca trabalhou fora, mas cuidar de três filhos e administrar uma casa não é mole não. O comprometimento deles com nossa educação e saúde foi impecável. Sempre soubemos dosar o que podíamos ter e fomos muito felizes com aquilo que recebíamos. Nunca levei uma bronca do meu pai, nunca vi tanta serenidade em uma pessoa. Ele é um amor!

* Conte qual era sua brincadeira predileta.
Brincava muito com meus irmãos em casa. Adorávamos fantasiar situações, como colocar um colchão na escada de casa e descer sentados nele como se estivéssemos esquiando em uma gigantesca montanha. Eu e minha irmã brincávamos de boneca com as roupas feitas pela minha avó, de playmobil com os móveis feitos pelo meu avô que era marceneiro (alias, os dois eram). Mas eu sempre gostei de brincadeiras de menino, sabe? Achava o máximo o kichute do meu irmão, empinar pipa, jogar bolinha de gude. Sempre fui arteira. Minha mãe diz que eu era uma pimentinha e quando eu reclamo das peripécias do meu filho e digo: mas quem este menino puxou? Ela ri e diz que eu era igualzinha…! hahaha

* E os sabores?
A família da minha mãe é toda Italiana, então a comilança sempre rolou solta! Minha avó morava em uma casa a poucos metros da nossa e lá cultivava ervas, frutas e muitas outras coisas. Adorava ficar na cozinha vendo minha vozinha cozinhar. Ficava esperando o dia do nhoque, ajudava a abrir a massa, enrolar e ia comendo as "bolinhas" cruas mesmo. Eu adorava! Foi com ela que aprendi a gostar de produtos naturais, de ter minha horta em casa. Já na família do meu pai, toda Portuguesa, os costumes eram outros. Nas férias de Julho minha avó sempre separava um dia para festejar a caráter. Os caldeirões de caldo verde eram enormes, alheira (uma linguiça típica), e sardinha na brasa. Posso sentir o cheiro dela pelo ar…. fogueira no quintal e para terminar a noite, batata assada na brasa. Nossa, morro de saudades!

* Houve pessoas importantes, qual foram?
Sempre fomos muito ligados à família. Meus pais exerceram um importante papel na minha infância, assim como meus irmãos… mas meus tios e avós não posso esquecer jamais. Perdi minha avó paterna quando tinha 15 anos. Foi um choque, ela era uma mulher incrível e teve um súbito derrame abdominal. Ela era costureira, e como só eu e minha irmã éramos as netas mulheres, ela tinha um carinho especial por nós. Dela herdei a paixão "craft”, ainda pequena ficava sentada ao lado de sua máquina de costura aprendendo a fazer pequenas coisas. Ela era uma mulher muito divertida e alegre. Me lembro dela sentada em uma cadeira enquanto eu fazia as unhas do seu pé, minha irmã fazia as unhas da mão e meus primos homens enrolavam "bigudinhos" no seu cabelo cinza ligeiramente roxo por causa da tintura. Meus avôs, eu perdi há pouco tempo, mas eles já estavam bem velhinhos. E minha vozinha, mãe da minha mãe, ainda está viva e com seus 90 anos parece uma bonequinha de porcelana.

* O que você guarda daquela época?
Guardo muita coisa boa na memória. Tenho sonhos constantes, lembro de cada detalhe e estou sempre revendo as fotografias feitas pelo meu pai com muita frequência. Foi uma época maravilhosa e fundamental para construir dentro de mim a mulher que me tornei hoje… e fico feliz ao me olhar no espelho, viu!






Fabi Martins tem dois blogs muito bacanas. Em um ela conta sobre seu cotidiano, sua paixão pela fotografia e pelo filhote Antônio. No outro ela mostra seu lado bem mulherzinha. Confira.

11 comentários:

Verônica Cobas disse...

Oi, Rosi e Fabiana....

Como sempre, estou por aqui para conferir as entrevistas de sexta. Nem sempre comento, mas estou presente. Hoje, ao ler as respostas da Fabiana, me identifiquei com vários momentos ou situações. Também sempre gostei de brincadeiras de menino. E, sem constrangimento algum, participei de todas. Joguei bola, soltei pipa, jogo de botão, bolinha de gude...De mesma forma, brinquei de boneca e casinha. Acho até que minha personalidade aguerrida se forjou nessa experiência também. E foi legal ver você, Fabiana, falando da maior herança que seus pais puderam te dar: o amor e o estímulo ao estudo. Também pensei assim em relação aos meus filhos. E tenho um certo orgulho de vê-los, adultos e profissionais de ótimo padrão.
Ótima entrevista, Rosi. Legal te conhecer mais, Fabiana.

bjs

Leticia disse...

Rosi e Fabiana,

Acho que todo mundo tem um lado nostalgico... só que alguns mostram, outros não muito. Eu sou super nostálgica. Lembro muito de coisas da infância, minha família, amigos de infância, brincadeiras, doces, escola... nossa!
É uma delícia saber que temos referências tão boas na nossa vida, não?
Beijos
lelê

Katia Bonfadini disse...

Oi, meninas!!!! Também me identifiquei muito com esse relato, principalmente essa parte (como colocar um colchão na escada de casa e descer sentados nele como se estivéssemos esquiando em uma gigantesca montanha). Eu e minhas primas fazíamos isso na casa da minha avó!!!!! Era uma delícia!!!! Também adorávamos inventar histórias mirabolantes de detetives e super-heróis, além de gravar fitas cassete representando cenas de novela! Ah, que nostalgia... Rosi, parabéns pela entrevista e pela entrevistada! Hoje também tem "Gente que faz" lá no blog. É uma convidada muito especial pra mim. Quando puder, vai lá me fazer uma visitinha!!! Beijos!!!

Fabiana disse...

Que gostosa essa entrevista! Me fez relembrar minha infância e juventude na casa dos meus avôs. Era tão bo viajar nas férias de julho e dezembro, e poder visitar os primos, os tios, e os avós.Ser paparicada, comer aqueles bolinhos deliciosos e brincar sem parar!
Nostalgia boa, e tempo gostoso que não volta mais!

Parabéns Rosi e Fabiana pela entrevista, adorei!

Rosi disse...

AVISO: Essa entrevista contém fotos, mas não consgio inserí-las daqui do serviço.

Assim que puder divulgar as belas fotos da Fabi, aguardem e voltem para conferir.

Bjs

Alethéa disse...

Ai, que delícia... voei longe agora...

Abraços.

by Faby disse...

Rosi, que delicia dividir um pouco da minha nostalgia por aqui e ver que muitas pessoas se identificam com minha história...

Obrigada pelo convite, pela paciência e por ter este espaço tão bacana dentro do seu blog.

E obrigada a todas vocês que deixaram seus comentários... fiquei super feliz!

Um beijo
Faby

♥♥ Thata ♥♥ disse...

A Faby é uma fofa, gosto muito muito dela!
Legal pode saber mais sobre ela no seu cantinho, parabéns pela iniciativa!
Bjão!

Elaine disse...

Rosi, que entrevista legal! Lembrança de infância é tudo de bom. A Fabiana soube imprimir um tom de saudosismo e alegria à sua entrevista, ficou leve, gostosa de se ler. Me levou à minha infância, a qual tenho tb muitas lembranças e saudades. De vez em qdo comento sobre minha infância pq pra mim foi como magia, viveria minha infância novamente se pudesse.
Já a adolescência eu passaria batido...ohh época horrível de minha vida.
Bjs, Elaine

Fla disse...

Que delícia de entrevista. Tem coisa mais gostosa do que reviver a infância da gente? Não né?
Minhas maiores lembranças são das férias que passávamos aqui em Sorocaba, na casa dos meus avos. Esperávamos o ano todo, lá em Campo Grande para poder revê-los.
Muito bom isso.
Beijos

Ana Carolina Peixoto disse...

Rosi, quanto tempo! Que saudade! Como vão as coisas? Antes de sair de férias te achei meio tristinha... Como anda a vida de casada? Estou tentando voltar aos poucos para blogosfera... Antes, eu estava enlouquecida com o trabalho, depois entrei de férias e agora estou sem computador em casa. Limitação total, né? Amei a entrevista! É muito bom conhecer um poquinho sobre as pessoas... Na realidade, eu nem conhecia a Fabiana. Vou tentar acompanhar o blog dela.
bjs e saudades,
Carol